Análise Baldur's Gate 3

Baldur’s Gate 3: o fim, enfim

500 dias depois, finalmente terminei a campanha de BG3.

Senhoras e senhores, leitoras e leitores mui amigos do território de Faerûn e além: venho com orgulho perante vós anunciar que, depois de um ano e meio desde minha primeira incursão aos Reinos Esquecidos da Larian Studios, enfim terminei a campanha de Baldur’s Gate 3. E como você pode imaginar, minhas opiniões sobre o jogo são muitas, assim como a quantidade de horas que levei para terminá-lo.

Para saber o que achei da experiência, acenda seu melhor charuto e, sem mais delongas, acompanhe-me nesta que pode muito bem ser minha última viagem pelo mundo de Baldur’s Gate

Karlach, Baldur's Gate 3
O Antropogamer adverte: fumar charutos pode prejudicar sua saúde financeira.

BALDUR’S GATE 3: UMA BREVE INTRODUÇÃO

Minha relação com Baldur’s Gate 3 está intimamente atrelada à história deste site. Isso porque comecei a jogá-lo na mesma semana em que criei o Antropogamer, cerca de um ano e meio atrás. Minha intenção original era escrever diversas matérias sobre o jogo, à medida que avançasse na narrativa – o que de fato acabei fazendo, pelo menos até certo ponto. 

O primeiro texto que escrevi sobre BG3 foi também um dos primeiros artigos publicados por aqui, e falava sobre minha incapacidade de bater o martelo quanto à criação de meu personagem. Seria ele um tiefling, um elfo ou um anão? No fim das contas, decidi jogar no seguro e criei um personagem à minha imagem e semelhança, em tudo tão ordinário quanto este interlocutor de olhos castanhos que vos escreve. 

Baldur's Gate 3 review
Uma transposição fidedigna da realidade.

O segundo texto, publicado um mês e meio após o lançamento de BG3, trouxe minha humilde opinião a respeito do primeiro ato do jogo, que me tomou nada menos que 80 magníficas horas. Lá, afirmei que Baldur’s Gate 3 era a magnum opus da Larian Studios – uma afirmação que se provou cada vez mais acertada à medida que eu avançava na campanha.

Também escrevi um texto de cunho ligeiramente sexual e impróprio para o ambiente de trabalho, versando sobre a conclusão do primeiro ato e minhas desventuras amorosas em Faerûn, bem como um artigo sobre a narrativa de BG3 que, reprovado em nosso rigoroso antropoteste de qualidade, acabou jamais encontrando a luz do dia, sentenciado ao fundo metafórico de uma gaveta virtual.

BG3 review
Um brinde à autocrítica.

Depois de minha última postagem sobre o jogo, ainda no final de 2023, fui obrigado a me afastar dos Reinos Esquecidos para escrever sobre outros jogos, entrevistar pessoas e criar conteúdo, a fim de oferecer a melhor e mais variada curadoria possível aos nossos leitores. Desde então, o Antropogamer cresceu: criamos um podcast, ganhamos acesso à cobertura de diversos jogos e escrevemos nosso próprio manifesto. Mas nunca abandonei por completo minha peregrinação por Baldur’s Gate 3.

Ao todo, foram 195 horas de jogo divididas em três grandes períodos: 80 e poucas horas para o primeiro ato, cerca de 40 para o segundo e aproximadamente 70 para finalizar o terceiro. Muitas ideias de artigos surgiram enquanto eu jogava. Uma delas, por exemplo, envolvia ler todos os livros de BG3 e produzir uma matéria sobre os melhores textos que eu encontrasse. Por questões de tempo e disposição, no entanto, a ideia acabou engavetada (pelo menos por ora), assim como minha intenção de dedicar um texto inteiro exclusivamente ao Ato 2 – certamente o mais sombrio de toda a campanha.

Shadowheart, naked, nua
Imagem meramente ilustrativa.

No fim das contas, feliz ou infelizmente, fui atropelado por uma quantidade massiva de trabalho no último ano, sendo forçado a deixar de lado meus planos para BG3 a fim de priorizar a análise crítica de jogos mais curtos. Desse modo, mantive Baldur’s Gate 3 longe dos holofotes, rolando irregularmente nos bastidores da minha vida enquanto eu produzia, admito, menos conteúdo sobre o jogo do que ele de fato merecia.

Feita essa mea culpa, devo pedir que não tema, cidadão de bem de Faerûn! Eis-me aqui para, 500 dias depois, fechar o ciclo e colocar um ponto-final em minha crítica a Baldur’s Gate 3, um dos melhores e mais complexos jogos que já tive o prazer de experimentar em minha carreira de Antropogamer. Então vista sua melhor armadura, prepare-se para a batalha e venha comigo desbravar esta derradeira análise de um dos maiores – e mais longos – RPGs de todos os tempos.

BG3 old
Antes tarde do que nunca.

LUZ E SOMBRA EM BALDUR’S GATE 3

Percebo agora, tendo a perspectiva completa do jogo e de sua história, que a divisão estrutural da narrativa de Baldur’s Gate 3 foi perfeitamente calculada. O primeiro ato serve tanto de tutorial às extensas possibilidades mecânicas quanto de introdução à convoluta narrativa que será desenvolvida pelo resto da campanha, sendo bem-sucedido em ambas as intenções. E se esse primeiro trecho do jogo entrega cenários geralmente solares e a céu aberto, o segundo ato se oferece como sua antítese, mergulhando-nos em terras amaldiçoadas por uma escuridão perpétua (a Maldissombra). Ainda que seja o mais curto dos três, o Ato 2 é também o mais denso e claustrofóbico de toda a história.

Baldur's Gate 3 análise
Hoje aprenderemos a fazer a barba com um serrote.

Em minhas horas iniciais no segundo ato, senti-me de repente enfraquecido diante dos inimigos. A dificuldade do combate aumentou substancialmente, e logo me vi sendo emboscado com frequência por adversários que me subjugavam sem esforço. Não nego também que o mundo ao redor, abandonado e entregue às trevas, tenha exercido algum poderoso efeito sobre mim, fazendo-me cometer erros que eu talvez não cometesse lutando à luz do dia. 

Nas Terras Malsombradas, os inimigos se tornaram mais letais e repugnantes. Por todo lado nesgas de sombra se esticavam na tentativa de reclamar para si os meus personagens, que agora entravam em sua centésima hora de aventura. As apostas ficavam cada vez mais altas, e à medida que atravessava cenários corrompidos por restos humanos e sangue coagulado, também aumentava minha vontade de perseverar e sobreviver, ansiando pelo dia em que veria outra vez o céu azul sobre a minha cabeça.

Yurgir, Baldur's Gate 3
Foram três horas de jogo somente para vencer Yurgir, o Traste Vermelho.

Mas o Ato 2 não foi apenas um contraponto estético à luminosidade heroica do primeiro ato, como também um contraponto moral. Muitas consequências amargas das decisões que tomei antes – mesmo aquelas que considerei justas – foram expostas como osso através da carne nesse intermédio da história, coroando a atmosfera já lúgubre com um doloroso sentimento de culpa. Metade dos tieflings que salvei na conclusão do Ato 1, por exemplo, foram pegos a caminho de Baldur’s Gate e aprisionados em território malsombrado – um deles morrendo de forma horrível, seus olhos e língua arrancados sem piedade.

Com tanto pelo que lutar, mas sem a força necessária, fui obrigado a passar um pente fino no inventário de meus personagens, procurando qualquer vantagem possível. Em mais de uma ocasião descobri, escondidos no fundo de minha mochila, feitiços e poções milagrosas que eu nem sabia existir, capazes de virar a maré da batalha a meu favor. Travei batalhas que duraram horas, venci inimigos que me tomaram dias. E depois de semanas perambulando pelas Terras Malsombradas, enfim venci a maldição e alcancei outra vez a luz. Após quase 130 horas de jogo, eu havia finalmente chegado à cidade de Baldur’s Gate.

BG3 review
Onde fui recebido com entusiasmo pelos locais.

Satisfeito, logo descobri que o Ato 3 bebe da mesma estética do Ato 1, oferecendo generosos espaços abertos e iluminados que criam uma espécie de efeito-sanduíche em toda a campanha, com uma bem-servida porção de trevas entre duas grandes seções luminosas. 

No Ato 3, o Sol voltou a bilhar, exibindo áreas coloridas e cheias de vida. Foi também aqui que os riscos ficaram ainda mais altos, e as apostas significativamente maiores. Se os atos anteriores funcionaram, respectivamente, como introdução e desenvolvimento da narrativa, ficou sob responsabilidade do terceiro fechar as muitas pontas soltas e arrematar de vez a grandiosa história de BG3. E foi de repente que, após tanto suor e tempo investidos, sobreveio-me a curiosidade disfarçada de desconfiança: Seria a conclusão de Baldur’s Gate 3 capaz de se manter à altura do restante do jogo?

Astarion
Seria?

Entretanto, eu levaria ainda dezenas de horas para descobrir a resposta a essa pergunta. Afinal, provando-se tão corpulenta quanto a primeira parte, a terça parcela de BG3 me tomou muito mais tempo do que inicialmente eu esperava – em especial pela tarefa autoimposta de concluir 100% das missões. Afinal, para ter certeza de que desfrutaria de tudo o que o jogo tinha para me oferecer (e também para escrever uma resenha verdadeiramente holística), comprometi-me a concluir todas as missões principais & secundárias – sem exceção! –, até que não houvesse mais nada a ser feito além de seguir para o fim da aventura.

E devo dizer: foi um glorioso final para um glorioso RPG.

BG3 review
[Sobe trilha épica]

MAIS QUE UMA OBRA-PRIMA

Preciso admitir que, quando iniciei o jogo (e ao longo das primeiras dezenas de horas da campanha), eu não me importava muito com nenhum personagem além de mim mesmo, fossem eles companheiros de equipe ou NPCs espalhados pelo mundo. Basicamente, eu estava atuando como um mercenário e vivendo em função do meu próprio umbigo.

Aos poucos, no entanto, à medida que interagia com aquele universo e enchia meus bolsos de moedas, passei a me importar menos com o dinheiro e mais com as pessoas que me cercavam – e também com os animais, fantasmas e todos os outros tipos de seres que habitam Baldur’s Gate 3.

Baldur's Gate 3 sexo
Incluindo essa gentil senhora.

Mais do que no restante do jogo, foi no Ato 3 que de fato percebi o peso de todas as escolhas que havia feito durante a campanha – muitas delas tomadas mais de um ano atrás. Sem jamais apelar ao save scumming para refazer minhas escolhas ou ter mais sorte nos diálogos (restringindo o carregamento de dados às batalhas), mantive-me fiel à minha proposta inicial de aceitar as consequências pelos meus atos. E foi com júbilo que descobri, já nas últimas horas de jogo, que minhas escolhas haviam rendido bons frutos.

Consegui libertar quem eu queria libertar, salvar quem gostaria de salvar e matar todos aqueles que precisavam morrer. E à medida que as diferentes missões de cada personagem de minha equipe convergiam para sua climática conclusão, percebi que eu havia conseguido moldar meu destino – e também o destino de meus companheiros – exatamente da forma como desejava. 

Urso-coruja
E de quebra adotei um Urso-Coruja.

Todos aqueles meses jogando – mais de um ano traçando com cuidado o caminho de cada companheiro sob meu comando – renderam afinal um generoso payoff. Ajudei Shadowheart a se reencontrar e depois me casei com ela. Libertei Astarion da escravidão e permiti que Gale fizesse as pazes com o passado. Mantive minha amizade com Lae’zel, apesar de nossas diferenças, e fui o pivô da união entre Wyll e Karlach contra as forças do mal. Halsin, Jaheira, Minsc: todos concluíram a jornada comigo em bons termos, e pude me reclinar na cadeira e respirar tranquilo ao constatar que havia alcançado, ao menos segundo minhas virtudes, o melhor dos finais possíveis para minha campanha de BG3.

No fim do jogo, estavam todos ao meu lado para me auxiliar na batalha que se aproximava. Não apenas minha party, mas também dezenas de personagens secundários que ajudei pelo caminho. Vê-los todos reunidos na mesma sala, fazendo juras de lealdade enquanto o mundo queimava lá fora, às portas do maior quebra-pau de todos os tempos, foi verdadeiramente emocionante – e sorri de orelha a orelha ao reencontrar tantos personagens dedicados a me socorrer, assim como eu havia me dedicado a socorrê-los durante esses 500 dias de jogo.

BG3 análise
Até o Yurgir apareceu pra festa.

Quando os créditos rolaram na tela, após uma extensa batalha final e um epílogo saudavelmente sucinto, dei-me conta de que Baldur’s Gate 3 não é apenas uma gema dos jogos modernos, mas também uma experiência que nenhuma outra mídia poderia replicar com similar efeito. A sensação de aventura proporcionada por BG3 é tamanha que chega a ser difícil descrevê-la para quem não tenha jogado. O escopo da produção se assemelha, sim, ao de tantos outros excelentes jogos de mundo aberto – de Skyrim a The Witcher 3 –, mas há algo de diferente no filho caçula da Larian. 

Os diálogos primorosos, a escrita impecável e a coerente decisão de criar menos, porém melhores sidequests do que os concorrentes permitem que Baldur’s Gate 3 infle no jogador um senso de realização que não encontra paralelo em qualquer outro formato. Filmes como O Senhor dos Anéis podem, sim, entreter-nos por uma dezena de horas ao contar uma história épica, cheia de reviravoltas e traições. Mas Baldur’s Gate 3 nos oferece a sensação de viver uma história épica. Mais do que acompanhar a narrativa, nós a moldamos; mais do que consumi-la, nós a criamos.

Lae'zel
Lae’zel concorda comigo.

Essa ímpar sensação de aventura é ainda ampliada por todas as situações fantásticas, cruéis, emocionantes e absurdas pelas quais passamos ao longo da campanha. Creio que me lembrarei de cenas de BG3 mais do que de qualquer outro jogo antes dele. São muitas as lembranças memoráveis que permanecem, a exemplo da inesquecível missão de resgate em um submarino, já no Ato 3, e da consequente batalha que travei para escapar de lá.

Nessa missão, uma contagem regressiva é acionada, e o jogo pede que você conclua uma série de pequenos objetivos dentro do submarino enquanto uma leva interminável de inimigos aquáticos brota pelo cenário. Levei cinco ou seis horas tentando, fracassando e tentando mais uma vez até conseguir salvar todos os prisioneiros – o que não era uma exigência do jogo, mas uma tarefa que estabeleci para mim mesmo. Apesar da dificuldade elevada, repetir a missão over and over jamais se tornou uma atividade maçante, pois a cada nova tentativa eu improvisava uma abordagem diferente, modificando por completo o andamento da missão.

Baldur's Gate 3 Wyll
Estratégico sem ser vulgar.

Em outra cena, ainda no segundo ato, encontrei um cirurgião com pinta de psicopata. Estava na cara que seria uma luta difícil, mas a verdade é que jamais terei certeza. Antes que a possibilidade do confronto se efetivasse, utilizei o carisma ridiculamente alto do meu personagem principal para convencer Malus Thorm, o malvado cirurgião, de que deveria se matar enfiando as garras no próprio cérebro. Assim, fui poupado de uma luta que, só posso imaginar, teria sido de outra forma bastante desafiadora.

Também fico feliz em dizer que participei, após meu período inicial de celibato, de incontáveis aventuras (e desventuras) sexuais. Transei com mulheres demoníacas e seres de sexualidade indefinida; com tieflings e githyankis, à luz do dia e na sombra da noite – e certa vez quase dormi com um devorador de mentes, antes que seus tentáculos me fizessem pensar duas vezes. E não sem uma dose de temor e empolgação, observei essas experiências sexuais se tornarem cada vez mais sórdidas e pitorescas à medida que eu prosseguia em minha jornada (o que, é claro, muito me agradou), provando que os escritores da Larian não têm medo de apimentar as coisas.

Baldur's Gate 3 review
50 tons de vermelho-sangue.

Em minhas quase 200 horas com Baldur’s Gate 3, posso afirmar que salvei muitas vidas e, para me manter senhor de minha própria história, fui também obrigado a tirar outras tantas. Dei muita risada com o humor sarcástico do jogo, me emocionei com suas revelações e me surpreendi com a obscena quantidade de gore presente na história. Pois não se engane: por mais engraçado e divertido que seja, BG3 é também uma história de violência, horror e carnificina desenfreada, espalhando sem dó muitas tripas pelo caminho à frente.

Vale também ressaltar o maravilhoso aspecto non-sense de BG3, que múltiplas vezes me deixou com um sorriso infantil no rosto. Em certa ocasião, por exemplo, fui transformado em uma dadaísta roda de queijo suíço, sendo forçado a rolar pelo cenário como um laticínio senciente. Em outra, ajudei um artista a se livrar do poltergeist que assolava sua casa e seu casamento. E o que dizer da possibilidade de jogar como um dinossauro? Certamente não são muitos os RPGs que possibilitam explorar masmorras e assassinar dragões tendo um velociraptor em sua party.

BG3 dinossauro
Ou seja lá de que espécie for isso.

E provando que a vida imita a arte (ou seria o contrário?), o estimulante senso de aventura e horror que eu estava sentindo in-game acabou vazando para o mundo real quando, já nos momentos finais da campanha, o jogo começou a apresentar uma mensagem de save corrompido, acusando que minha campanha não podia mais ser carregada. 

O desespero, irmãos, o desespero! Depois de um ano e meio investido, quase tive uma síncope ao conjecturar a possibilidade de perder meu progresso a menos de dez horas do fim do jogo. Assim, de súbito me descobri orando para deuses novos e antigos na esperança de reaver os dados salvos, somadas já 180 horas de jogo. Suei frio por onde nunca havia suado antes e por um momento me vi escrevendo uma versão diferente deste texto – uma em que eu precisaria explicar o motivo pelo qual jamais terminaria Baldur’s Gate 3

BG3 análise
Foi assim que me senti.

As preces, no entanto, deram resultado: depois de reinstalar o jogo, fui capaz de restaurar os dados salvos e, para alívio do meu coração palpitante, continuar a partida. Mas o medo de perder toda a campanha permaneceu ao meu lado pelo resto da experiência, olhando-me de soslaio até que o jogo enfim terminasse.

BALDUR’S GATE 3: O VEREDITO

Tudo somado, sinto-me obrigado a reforçar o que já deve ter ficado bastante claro para quem acompanhou os textos que escrevi sobre BG3: estamos diante de um dos maiores, melhores e mais bem escritos jogos de todos os tempos. Isso não quer dizer, é claro, que Baldur’s Gate 3 esteja livre de problemas. Entre eles, destaco a falta de explicação (ou explicação limitada) sobre o funcionamento e efeitos de determinados itens, como poções e outros consumíveis, o que por vezes deixa o jogador às cegas.

BG3 Thorm
Essa piada já estava pronta.

Outro problema, mas que acaba sendo inerente a um RPG dessa dimensão, é a organização do inventário. Por mais que a Larian tenha se esforçado para facilitar o gerenciamento de nossas bugigangas (por exemplo, inserindo um campo em que podemos digitar o nome do item que procuramos), a verdade é que, mesmo fazendo pausas a cada 20 ou 30 horas de jogo para organizar, vender ou descartar os itens de cada personagem, gerenciar o inventário nunca se tornou uma tarefa realmente fácil. E depois de quase 200 horas, eu estava carregando tantas traquitanas (entre dezenas de armas, roupas, anéis e amuletos) que já nem sabia mais quais eram os itens em meu poder, ou com qual personagem estava aquele pergaminho de que eu tanto precisava para vencer a batalha. 

Baldur's Gate 3 inventário
Olha o tamanho desse inventário.

Mas, de todos os (poucos) defeitos de Baldur’s Gate 3, é o jogo de câmera que mais incomoda. Eu já havia mencionado esse problema em meu último artigo, quando estava ainda nas primeiras 80 horas de jogo, e posso afirmar que ele se fez apenas mais presente durante o resto da experiência.

Com frequência, os personagens acabam sobrepostos no campo de batalha, induzindo o jogador a ferir um aliado quando intencionava atacar o inimigo. Muitas vezes fiquei no prejuízo, durante um confronto, depois de gastar um precioso feitiço que acabou saindo pela culatra ou atingindo o alvo incorreto, apenas porque a câmera e o sistema de detecção não funcionaram como deveriam. 

Baldur's Gate 3 análise
Mirei no dragão, acertei meu pé.

Graças a Baal, porém, Baldur’s Gate 3 é tão bom que mesmo esses tropeços são incapazes de tirar o brilho do jogo ou causar significativos impactos na experiência. No fim do dia (ou dos 500, no meu caso), BG3 é simplesmente fantástico demais para que possamos chamá-lo de qualquer coisa menos que uma baita realização.

Admito que, sim, pode parecer um jogo complexo, denso e até mesmo excessivamente longo. No entanto, a profundidade oferecida pelo roteiro e a exímia atenção aos detalhes – da hipnótica trilha sonora à bem-humorada descrição dos itens – fazem de Baldur’s Gate 3 uma obra obrigatória para qualquer pessoa interessada em videogames e, mais do que tudo, em boas histórias.

Se você não jogou ainda, ouça o conselho deste amigo que vos quer bem: embarque nesta jornada por Faerûn hoje mesmo e regozije-se com a mais sublime das epopeias já oferecidas em qualquer mídia audiovisual. E para aqueles que já jogaram (e concluíram a história), resta a pergunta que agora também me faço: chegamos ao fim da aventura, mas será que a aventura realmente chegou ao fim?¹

 

¹ Não se depender de mim – e do perverso avatar que pretendo criar para uma segunda campanha. Desta vez com ainda mais sangue, imoralidade e decisões questionáveis, fazendo em tudo o exato oposto daquilo que fiz em minha primeira jornada. Mas isso já é assunto para outro(s) texto(s). Por ora, seguirei com a lembrança do belo sonho que foram esses 500 dias com BG3, reconfortando-me com a memória das magníficas derrotas e terríveis vitórias que atraí sobre mim mesmo, até que o chamado dos Reinos Esquecidos inevitavelmente me faça reinstalar o jogo e mergulhar outra vez no viciante universo de Baldur’s Gate 3.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhar esse artigo:

Artigos relacionados

Rolar para cima